Meditação

Técnicas ativas e passivas

Nartan-Lemos_massagem

O termo meditação é usado para designar um recurso do funcionamento psíquico, buscando o espaço vazio de onde emergem as novas possibilidades de reorganização psico-afetivo-somática. A partir daqui, ser espiritual é vivenciar “ser”, experiência mediada pelo gradativo enfrentamento da vulnerabilidade psíquica e afetiva daquele que “medita”.

A meditação, no contexto de trabalho relacional, está associada à capacidade de estar só e ao mesmo tempo de estar com um “outro”. O enfrentamento do mundo interno — as histórias traumáticas de privação, desamparo, autoinvalidação, repressão, encobertas pelas estratégias de sobrevivência do caráter, indicam quais as fontes dos conflitos relacionais. Uma vez face a face com seus próprios referenciais constitutivos de sua personalidade, quando o outro real está ali, já não é tão fácil projetar sobre ele a totalidade da insatisfação ou esperar dele a providência da satisfação plena.

Conhecer as raízes do próprio desenvolvimento humano traz como ônus uma responsabilidade sobre si. Porém, é desta responsabilidade que se constrói a “liberdade do espírito” comumente subjugada pelas feridas emocionais.

Para Osho, a meditação é um estado de ser, é o estar consigo mesmo, é o grande encontro. Osho nasceu na Índia, em 1931. Conta-se que desde pequeno era um espírito independente estimulado pela continência de seus avós que o criaram. Ao completar seus estudos, lecionou Filosofia na Universidade de Jabalpur enquanto viajava pela Índia nos conhecidos debates públicos, desafiando crenças e religiões ortodoxas. Aos 21 anos, vivenciou experiência de expansão de estado de consciência que transformaria toda a sua história e o faria um dos mestres mais polêmicos de todo o mundo.

Profundamente conhecedor da psiquê do Ocidente, ele criou técnicas de meditação que visavam a um processo de limpeza profunda das questões próprias das mentes ocidentais, tendo sido um dos raros mestres que acolheu a necessidade de psicoterapia como uma das antesalas para o processo meditativo. São mais de quinhentos livros com seus discursos transcritos. Suas falas são comumente contraditórias, estando ele empenhado em não criar ao seu redor verdades sobre as quais seus discípulos pudessem criar doutrinas ou religião. Este era o seu estilo. Insistiu maciçamente na primazia da experiência existencial como porta para a ampliação dos estados de consciência.

Minha mensagem não é uma doutrina, nem uma filosofia. Minha mensagem é uma certa alquimia, uma ciência da transformação, de modo a que só os que estão dispostos a morrer e a nascer outra vez são capazes de imaginar… não se trata de uma doutrina na qual possam encontrar consolo para questões embaraçosas. Não é uma comunicação verbal. É algo muito mais arriscado (Osho).

Osho foi um dos grandes mestres espirituais do nosso século a trazer luz sobre a urgência do nascimento de uma nova consciência psicológica no Ocidente. Se na juventude foi professor de Filosofia, distanciou-se da perspectiva intelectual de entendimento da natureza humana para dar lugar à realização da natureza libertária do espírito humano. Seu trabalho foi muito disseminado no Ocidente, embora em meio a perseguições e difamações pela ideologia norte-americana interessada em cooptar a força jovem para seus interesses. É ainda surpreendente o poder delegado a Osho pelo governo norte-americano que tanto esmerou-se para aniquilá-lo, sendo dado de sua biografia sua morte por envenamento em prisão dos Estados Unidos.

Mas, além dessa corrente difamatória, os seus próprios métodos de trabalho foram controversos, passíveis de críticas contundentes e bem fundamentadas por setores realmente preocupados com a desestruturação psíquica a que muitas das suas técnicas poderiam levar. A época de efervescência da contracultura, com a dimensão do caos à flor da pele social, favoreceu equívocos dos movimentos em torno do seu trabalho: “oshismos” se espalharam pelo mundo, verdadeiras igrejas fundadas em torno de seu movimento carregando muitas distorções, oportunistas ou ingênuas, que levaram à banalização da sua mensagem.

Suas singulares “meditações ativas” são estruturadas de modo a primeiro aliviar as tensões acumuladas no corpo e na mente, para que então fique mais fácil experimentar o estado de meditação relaxado e livre de pensamentos. Osho admirava muito Reich, e baseou suas técnicas meditativas na visão de homem desenvolvida por Reich, e com o intuito de ajudar a dissolver as couraças musculares e caracteriológicas, através da respiração, da catarse e do movimentação do corpo.

Osho estava ajudando a criar as condições para o nascimento de um novo tipo de ser humano. Ele caracterizava esse novo humano como “Zorba, o Buda” — capaz de desfrutar tanto os prazeres da terra, como Zorba, o grego, quanto a silenciosa serenidade de Buda Gautama.

Nesse processo, o que a meditação pode propiciar é o despertar de novos níveis de realidade nas relações interpessoais e através deles alcançar o que Osho chamou de “divina solitude”, a via fundamental para uma intimidade real:

A capacidade de estar só é a capacidade de amar. Pode parecer paradoxal para você. Mas, é uma verdade existencial; só aqueles que são capazes de ser sozinhos são capazes de amar, de compartilhar, de ir até o mais profundo do outro – sem possuí-lo, sem tornar-se dependente do outro, porque eles não estão ancorados no outro (OSHO apud KRISHNANANDA, 1999).