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Criança ferida: como os sentimentos reprimidos geram couraças musculares

Não podemos controlar nossos sentimentos, mas podemos mudar nosso comportamento em relação ao que sentimos. Com a psicoterapia e o corpo em movimento, podemos adotar uma nova postura e ser menos afetados

Toda criança nasce com o núcleo vital intacto, totalidade que podemos chamar de self, elã vital, ou essência. Emergindo desse espaço de vitalidade, a criança é espontânea e curiosa. E assim, destemida e aberta para captar tudo que a experiência tem a lhe mostrar, vai descobrindo o mundo.

Ao passo que vivencia os traumas na vida (como momentos de invasão, abandono ou sufocamento), a criança descobre os sentimentos de medo, insegurança, vergonha e desconfiança. Quando, por exemplo, uma criança é violentada fisicamente por quem deveria lhe cuidar e proteger, isso é muito traumático. Ao ser ferida, ela acessa a camada da vulnerabilidade, onde sente insegura, amedrontada e desconfiada.

A criança ferida é um espaço muito comum entre todos nós. É quando somos tomados pelo medo, insegurança, vergonha e desconfiançaPara entender esses sentimentos e identificar padrões de comportamento que geram mal estar é preciso observar a criança emocional – que é uma metáfora. Hoje não somos mais crianças, mas carregamos esta instância psíquica dentro de nós.

Quanto mais observamos a nossa criança ferida (e sem julgá-la), mais começamos a nos entender um pouco mais. Assim, a consciência amadurece. E a criança emocional não desaparece, mas deixa de ser uma força que orienta nossos pensamentos e sentimentos sem que possamos perceber. Ou seja, ela vai deixando de comandar a nossa vida.

A contenção dos sentimentos

Os sentimentos, que podem ser medo, ansiedade, raiva, insegurança, inveja, vergonha, entre muitos outros, sempre causam alguma reação orgânica quando não expressos.

E qualquer ser humano, em qualquer lugar do mundo (independente de raça, religião, status) vivencia os mesmos sentimentos, que são reações naturais e universais. E, para viver em sociedade, somos reprimidos em nossa expressão emocional, ou seja, não podemos expressar nossos sentimentos.

Como nossa cultura e sociedade nos ensina a reprimir o que sentimos? Engula o choro! Sentir raiva é feio e negativo! Pra que você vai ficar triste? Não somos estimulados a expressar o que é natural sentir. E é como se estivesse algo errado sentir contrariedade, mágoa, frustração e irritabilidade. Assim, passamos a sufocar sentimentos considerados inadequados.

Das couraças musculares às doenças

Então, quando uma sentimento não é expresso, para onde ele vai? Sabemos que não vai para o universo ou desaparece nas galáxias. O sentimento fica contido no corpo como estase, como pouca pulsação ou oxigenação. É o que o Reich chamou de couraças musculares.

Como somos seres emocionais por natureza (e não racionais), vamos expressar nossas emoções de alguma maneira: se não for de forma natural, emergirá através de algum sintoma/doença, ou mal estar físico. Aqui destaco que há uma relação direta entre a criança ferida, as emoções contidas/reprimidas, e o que isso causa no corpo – ou como somatizo tudo isso.

Ao engolir o choro, ele fica na minha garganta, no meu peito. Aquela raiva que não expressei, fica contida nas minhas escápulas, nos meus ombros. E essa tensão, futuramente, para além de uma couraça muscular, pode virar uma doença psicossomática: como as doenças de pele, estomacais, também o câncer (que diz de muitas mágoas), entre outras possibilidades, tendo em vista todos nós vamos ter um órgão de choque.

Os transtornos psicossomáticos são um reflexo de uma ruptura do equilíbrio mental, emocional e corporal; ocorrem quando um órgão ou próprio sistema orgânico se desregula por responder em excesso ou por muito tempo à sobrecarga emocional. Assim, cada vez mais se evidencia a relação entre fatores emocionais/psicológicos e o desenvolvimento de um grande número de doenças, que vão desde as neurológicas até enfermidades infecciosas e imunes.

O corpo em movimento

Além da psicoterapia, movimentar o corpo é essencial para a liberação das emoções contidas. Por isso eu acho fantástico o processo das meditações ativas do Osho, que privilegiam a catarse e sugerem que, para entrar em contato a nossa essência, precisamos antes “esvaziar a xícara”, pois estamos cheios de emoções contidas e sentimentos guardados.

Ao movimentar e oxigenar o corpo, por meio de exercícios e também da dança, colocamos para fora nossos sentimentos reprimidos e podemos alcançar uma expressão emocional mais sadia e uma melhor saúde e qualidade de vida. O corpo agradece.

Nartan Lemos é psicóloga e terapeuta corporal com especialização em Terapia de Relacionamento, Criança Ferida, Bioenergética, Dançaterapia e Meditação. Atende individual e casal em Brasília (DF). Contato: nartanlemos@gmail.com | (61) 9 8173-8433.